Salitre

Salitre e eflorescências – causas e prevenção

 

O termo SALITRE não traz normalmente boas recordações. Aquelas eflorescências brancas que teimam em sair dos tetos, paredes e chão, significam a presença de humidade. Humidade que tudo destrói. Em geral não sabemos como solucionar o problema ou imaginamos grandes obras de fundo em casa com as consequentes infiltrações de pó por todo o lado. Enfim, é um problema sobejamente conhecido mas cuja essência escapa à nossa compreensão.

Em alguma ocasião, todos nos apercebemos que na generalidade das paredes exteriores e algumas interiores, usualmente junto ao solo, ao fim de algum tempo após a pintura, a tinta se solta em lâminas pequenas ou grandes que, com o avançar do tempo, acabam por se desprender e cair.                                               
O mesmo acontece com pavimentos ou revestimentos em pedra natural, cerâmicos ou outros, que sendo ou não vidrados têm um comportamento idêntico ou seja, ao fim de algum tempo começam por “esfarelar” ou, se tratados com produtos impermeabilizantes tópicos, ceras, vernizes ou tintas, a camada que formam começa por soltar-se e mais tarde acaba por aparecer um pó solto, constatando-se que estes materiais se estão a degradar superficialmente.

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Este fenómeno acontece também com o próprio cimento Portland, com ou sem tratamento superficial ou mesmo com revestimentos de pedra ou outros materiais porosos, nomeadamente com mosaicos hidráulicos.

Normalmente quando consultado o construtor ou o pedreiro que executou a obra, ouvimos invariavelmente a mesma resposta:

- É salitre provocado pela humidade e pelas areias contaminadas com sal do mar que foram utilizadas na argamassa.

 

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 Com esta resposta estão a afirmar em simultâneo que as areias adicionadas ao cimento estavam contaminadas com sal e que a responsabilidade deste fenómeno negativo não é sua, porquanto, que não sabem a origem das areias em causa e não têm processo de avaliar a quantidade de sal que as areias possam ter na sua constituição.

Nada mais errado que atribuir ao sal (cloreto de sódio) a principal origem de tal fenómeno químico.

É, também, vulgar atribuir aos materiais de revestimento uma qualidade inferior para explicar tal fenómeno. Outro erro.

Sendo certo que os sais incorporados na água de amassadura ou nas areias não contribuem para este fenómeno, ou fazem-no de forma reduzidíssima, importa perceber então qual a origem do problema.

Analisemos, então, este fenómeno!

 

Na generalidade das obras é utilizado o Cimento Portland e muito poucas pessoas, incluindo inúmeros técnicos de construção, sabem da existência de um outro cimento que é o Cimento Pozolânico, embora este exista desde a Antiguidade Clássica (Egipto, Síria, Grécia e Roma) e mesmo de tempos mais remotos nomeadamente na cidade de Jericó onde existem argamassas com cerca de 9.000 anos, ainda em serviço e em excelente estado de conservação.

Ora, o Cimento Portland é um cimento com elevado calor de hidratação e tem na sua constituição a Alite ou Alita (C3S) que é a principal constituinte deste cimento (50 a 70% na fase cristalina). Alite é uma designação para silicato tricálcico (Ca3SiO5), por vezes formulado como 3CaO·SiO2 (C3S na notação química do cimento, CCN). É a maior, e característica, fase mineral no cimento Portland. O nome foi atribuído por Törneborn em 1897 a um cristal identificado em investigação microscópica do cimento Portland. Alite ou alita é uma designação de uso comum na indústria de cimento, embora não seja uma designação mineral reconhecida.

De forma simples e sucinta, tendo presente o objetivo deste artigo, pode-se descrever o fenómeno da seguinte forma:

Nos “maciços” (grandes massas de betão) subterrâneos e nas paredes constituídas por argamassa de betonilha, quando constituídos por argamassas de cimento Portland, sujeitos à presença de água, desenvolve-se a seguinte reação química:

A água dissolve o hidróxido de cálcio Ca(HO)2 constituinte do cimento, que se liberta através dos poros e este ao chegar à superfície reage com o anidrido carbónico contido no ar dando origem a eflorescências de Carbonato de Cálcio (CaCO3), reduzindo a pó a camada superficial do material exposto.

 

 Eflorescências, o que são 
A eflorescência é um depósito cristalino de sais solúveis em água sobre a superfície da alvenaria. A principal objeção à eflorescência é a sua aparência antiestética. Apesar da eflorescência ser antiestética e uma dor de cabeça para ser removida, é usualmente inofensiva para a alvenaria de tijolo.

A eflorescência é usualmente de cor branca; alguns compostos de vanádio e de molibdénio, presentes em certas peças cerâmicas, podem produzir um depósito verde, vulgarmente referido como “manchas verdes”. Ocasionalmente, podem ocorrer “manchas castanhas”, resultantes de depósitos de compostos de manganês.

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Sob certas condições e circunstâncias específicas, é possível aos cristais das eflorescências formarem-se no interior das peças. Quando isto sucede, é possível que a pressão de cristalização e de crescimento dos cristais possa causar fissurações e danos nas alvenarias.

 

Mecanismos da eflorescência

Os mecanismos da eflorescência são muitos e frequentemente complicados. No entanto, explicando com simplicidade, os sais solúveis em água que estejam em solução, são trazidos à superfície da alvenaria e depositados nela por evaporação. As soluções salinas podem migrar através das superfícies das unidades, entre a argamassa e as unidades, ou pela estrutura porosa quer da argamassa quer das unidades da alvenaria.

Há certas condições simultâneas que devem estar em presença para que se dê a ocorrência da eflorescência. Os sais solúveis devem estar presentes no interior ou em contacto com o objeto de alvenaria. Estes sais podem estar presentes nas unidades aparentes, nas unidades do interior das alvenarias espessas, nos componentes da argamassa, nos ornamentos, etc. tem também de existir uma fonte de água em contacto com os sais durante o tempo suficiente que permita a dissolução dos mesmos. A alvenaria deve estar de tal forma que a migração das soluções salinas para a superfície, ou para outras localizações, ocorra num ambiente que seja indutor da evaporação da água.

Pelo exposto, torna-se aparente que se a alvenaria for construída por forma a não conter sais hidrossolúveis, ou a não permitir que seja penetrada pela água, as eflorescências não deverão aparecer. No entanto, nas alvenarias convencionais expostas ao tempo, nenhuma destas condições pode ser cumprida. Consequentemente, a maneira mais prática para a eliminação das eflorescências é reduzir todos os fatores contributivos ao mínimo.

 

 A origem dos sais 

A origem química dos sais eflorescentes é geralmente alcalina e têm sido identificados sulfatos e carbonatos terrosos alcalinos, além de cloretos. Os sais mais comuns encontrados em eflorescências são compostos por sulfatos e carbonatos de sódio, potássio, cálcio, magnésio e alumínio. Também podem ocorrer cloretos nas eflorescências. Esta é geralmente a consequência do uso do cloreto de cálcio como acelerador na argamassa, da contaminação das unidades de alvenaria ou da areia da argamassa pela água do mar, ou da utilização imprópria de ácido clorídrico em soluções de limpeza.

As eflorescências são cumulativamente complicadas pelas muitas possíveis origens de sais solúveis. Os sais solúveis podem estar presentes nas unidades da alvenaria, na argamassa, ou podem resultar quer da água da chuva quer da água do solo, e ainda de outras fontes.

 

Unidades de alvenaria: Logo que a eflorescência aparece na face de uma parede, é frequente e erradamente assumido como sendo por culpa do tijolo. Não é esse geralmente o caso. Existem sais solúveis presentes em muitas das unidades que constituem o conjunto da parede.

Tijolo: Em consequência das matérias-primas e da alta temperatura associadas ao seu processo de fabrico, é possível existirem fases solúveis no interior do tijolo acabado. Se for absorvida água por tais produtos, os sais solúveis entram em dissolução e a eflorescência formar-se-á conforme se for desenvolvendo a evaporação à face do tijolo.

 

 tijolo
Interior: Os blocos de alvenaria usados como enchimento no interior de paredes ou como panos interiores de paredes em alvenaria podem conter grande quantidade de sais solúveis. Estas unidades contribuem para a eflorescência na face da parede, se existir água suficiente para dissolver os sais e forem proporcionados encaminhamentos para a solução atingir a superfície da alvenaria.  SingleLeafInteriorEurima
Ornamentação: Ornamentos construtivos, tais como corrimãos, capeamentos, soleiras, lintéis, pedras–de–fecho, etc. são feitos frequentemente com materiais diferentes que não cerâmicos. Estes artigos podem ser em pedra natural, pedra artificial, betão, etc., e podem conter sais solúveis. Tais materiais podem contribuir significativamente para a eflorescência na face de tijolos adjacentes.  capeamentos
 

Argamassa: A argamassa pode ser um contribuinte significativo para a eflorescência. Como Brownell afirma :

“A primeira e mais óbvia fonte de contaminação dos tijolos que de outra maneira estariam livres de eflorescências é a argamassa usada na construção das paredes. A argamassa está em contacto íntimo com os tijolos pelo menos em quatro ou cinco das suas faces. É aplicada ao tijolo numa condição molhada e pastosa que proporciona ampla humidade para a transferência dos sais solúveis a partir dessa argamassa para os tijolos. Se algum material solúvel em quantidade apreciável estiver presente na argamassa, ele será transportado para o tijolo proporcionalmente à quantidade de humidade transferida”.

 argamassa

“O mais simples caso de contaminação com sais solúveis sobre tijolos livres de eflorescências é a migração de soluções de “alcalis livres” a partir da argamassa para o tijolo. Esta situação não é só o mais simples mecanismo, mas também o mais comum. No mercado, é conhecida por “flores da construção nova”.

Cimento: Os alcalis solúveis em água mais vulgares no cimento são o sódio e o potássio. Os alcalis presentes no cimento Portland variam conforme a origem deste, entre limites aproximados de 0,02% até 0,09% em peso desse cimento. Uma observação de cimentos para alvenaria indicou uma gama de alcalis desde 0,03% até 0,27% em peso do cimento.

Cimento

 

Suspeita-se que os sulfatos contidos nos cimentos podem ser tão significativos como o seu conteúdo em alcalis na contribuição para a eflorescência. Os métodos modernos para a fabricação de cimento que tentam conseguir conservação de energia podem ter como resultado largas quantidades de sulfatos nos produtos acabados.

Com o cimento Pozolânico que tem na sua constituição 30 a 40% de cinzas vulcânicas (pozolanas) ou argilas e que tem um calor de hidratação baixo este fenómeno negativo não acontece. As escórias e pozolanas (hidraulites) actuam sobre o Ca(HO)2 (hidróxido de cálcio), produzem silicatos e diminuem a ação nociva dos sulfatos.

O cimento Pozolanico, "Caementum" dos Romanos resultou da combinação de cal com pozzolana, uma cinza vulcânica existente no Monte Vesúvio, zona de Pozzuoli, em Itália. Com este processo conseguia-se obter um cimento com maior resistência à ação da água, quer fosse doce quer fosse salgada.

Ora, sendo certo que na generalidade das aplicações o comportamento mecânico destes dois cimentos é idêntico e os preços de ambos os cimentos, Portland e Pozolânico são aproximados, perguntar-se-á então porque não é utilizado em Portugal o cimento Pozolânico para condições em que a presença de água é inevitável.

 

 

A principal razão é com certeza o facto das pessoas em geral e de grande parte dos técnicos de construção em particular, considerarem que o problema se deve às areias contaminadas com sal, que provocam o tal “salitre” e entenderem ser difícil, se não impossível, adquirir areias sem contaminação de sais e obviamente, por não conhecerem a real origem do problema.

Outra razão é o facto de não existir no mercado em Portugal cimento Pozolânico em sacos. Só é possível a sua aquisição a granel, em contentores especiais e, portanto, só se justifica utilizá-lo em grandes obras, nomeadamente na construção de barragens, onde pelas razões apontadas (presença da água doce) este cimento é inevitavelmente utilizado e mesmo recomendado pelas cimenteiras.

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Exemplo de cimento com fragmento de pedra branca (caementum) colocado entre paramentos em tijolo como cofragem permanente.

As fabricas de cimento portuguesas, embora nas suas indicações técnicas e especificas indiquem como contraindicações o “contacto com ambientes agressivos (águas e terrenos)” para alguns tipos de cimento Portland, informando para outros também como contraindicações que “em ambientes agressivos seguir estritamente as recomendações normativas e os textos técnicos sobre o assunto.”, não dão suficiente ênfase e esclarecimentos sobre o assunto.

Pelo menos uma empresa cimenteira portuguesa tem de facto na sua gama de produtos o cimento Pozolânico e indica como principais aplicações para este cimento os tais ambientes agressivos. No entanto o fornecimento só se faz a granel.

 

Cal: Diversos investigadores discordam quanto à possível contribuição da cal para as eflorescências. Foi demonstrado que a adição de cal, de argila ou de areia à composição de uma argamassa geralmente não contribui para a eflorescência (T.J. Minnick, “Effect of Lime on Characteristics of Mortar in Mansonry Construction”, Bulletin, American Ceramic Society, 38 (5), 1959). De facto, estes componentes tendem a diluir os efeitos deletérios de um cimento altamente alcalino.

cal
Por outro lado, a cal é relativamente solúvel. A sua presença pode servir para neutralizar os ácidos sulfúricos gerados no interior da alvenaria. No entanto, uma solução de limpeza que contenha ácido clorídrico pode produzir cloreto de cálcio muito solúvel o qual pode migrar para a superfície.

Ainda assim, a cal na argamassa é muito importante no estabelecimento de boa coesão entre os tijolos e, por isso, aumenta a resistência à água das alvenarias.

 

Areia: As areias usadas na argamassa são essencialmente sílica, e como tal não são solúveis em água. As areias, no entanto, podem estar contaminadas com materiais que contribuem para a eflorescência. Esta contaminação pode incluir: água do mar, escorrimentos provenientes da terra, de plantas vivas e de matérias orgânicas em decomposição, entre outras. Qualquer destes materiais pode contribuir para a eflorescência.

 areia
Origens diversas de sais: Além das argamassas e das unidades usadas na alvenaria, existem outras fontes exteriores de sais solúveis que podem contribuir para a eflorescência. Algumas delas serão abordadas em seguida:

Aditivos: Existe na indústria uma larga variedade de aditivos para argamassas de alvenaria. Muitos destes produtos são patenteados e a sua composição não é divulgada. Geralmente, são classificados como fluidificantes, incorporadores de ar, hidrófugos, hidratantes e aceleradores de presa.

Os efeitos destes aditivos nas propriedades das argamassas são geralmente limitados à fluidez, retenção da água e resistência. Está disponível pouca informação sobre os seus efeitos sobre a coesão, quer entre a argamassa e os tijolos, quer entre a argamassa e a armadura. Além disso existe alguma evidência, baseada em larga experiência em obra, que certos aditivos podem reduzir a coesão entre argamassa e tijolos. Esta redução na coesão pode tornar as paredes em alvenaria mais vulneráveis à sua penetração pela água.

Por estas razões, não são recomendáveis aditivos com componentes desconhecidos para serem usados nas argamassas, a menos que tenha sido estabelecido, pela experiência ou por testes laboratoriais, que nunca irão afetar a coesão das argamassas ou contribuir para a eflorescência.

Cloreto de cálcio: O cloreto de cálcio é por vezes adicionado à argamassa como acelerador, conforme o permite a ASTM C 270, Specification for Mortars for Unit Mansonry. O cloreto de cálcio e os compostos que o contenham não devem ser permitidos numa alvenaria que contenha armaduras metálicas pois a corrosão do metal embebido pela argamassa irá ocorrer quando as condições de exposição lhe forem favoráveis. 

Se for usado cloreto de cálcio, deve ser limitado a uma dosagem que não exceda 2% em peso do cimento Portland, ou 1% do cimento para alvenaria (geralmente cerca de 50% de cimento Portland) contidos na argamassa. Normalmente, esta quantidade de cloreto de cálcio não irá contribuir para a eflorescência.

Água nos solos: Os sais solúveis do solo estão dissolvidos pela água que o penetra. Consequentemente, a maioria das águas nos solos contém uma alta concentração destes sais. Quando a terra está em contacto com a alvenaria, a água do solo pode ser absorvida pela alvenaria e pode subir, por ação capilar, vários decímetros acima do solo. É então possível uma acumulação de sais na alvenaria.  agua-dos-solos
Atmosfera: Foi informado por certos investigadores que os gases sulfurosos da atmosfera podem contaminar as alvenarias. (F.O Anderegg, “Efflorescence”, ASTM Bulletin N.º 195, 1952). Esta situação durante um certo período de tempo irá provocar a desintegração da superfície da argamassa das juntas. Estes ácidos também podem atacar os componentes do próprio tijolo. A ocorrência destas anomalias é pouco frequente e está limitada a áreas altamente industrializadas e às regiões costeiras.  gases-sulfurosos

Origens da humidade

Como atrás discutido, o mecanismo da eflorescência depende da presença de água livre na alvenaria para dissolver os sais solúveis disponíveis. Enumeram-se algumas origens da água livre nos parágrafos seguintes:

Água da chuva: A primeira origem da humidade na ocorrência das eflorescências é a água da chuva que penetra e fica em contacto com a alvenaria. A água da chuva irá penetrar todas as paredes de alvenaria até um certo grau, especialmente se tiverem sido incorretamente projetadas ou pormenorizadas. A mão-de-obra empregue na construção de uma parede em alvenaria também vai ter um efeito significativo na quantidade de água que penetra nessa parede. Alvenarias de tijolo com assentamento caracterizado por juntas parcialmente preenchidas, marcação profunda dessas juntas ou execução defeituosa de peças de remate ou de ligação metálicas, estarão mais sujeitas à penetração pela chuva.

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Condensação: Além da água da chuva e do solo, pode-se acumular água dentro das paredes como resultado da condensação de vapor de água. Frequentemente, a eflorescência que aparece nas paredes de alvenaria protegidas contra a chuva é devida a esta acumulação de água condensada.

 

A condensação é geralmente consequente de humidades originadas no interior dos edifícios. O ar frio exterior, que entra num edifício e que é aquecido por questões de conforto, é geralmente de baixo conteúdo em humidade.

 

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Humidades provenientes da cozinha, dos banhos e de outras operações que empregam água ou vapor, e humidades libertadas pela respiração e pela transpiração dos ocupantes, humidificam este ar. Este ganho em teor de humidade aumenta a pressão do vapor do ar interior substancialmente acima do que existe fora das portas. Esta pressão crescente tende para conduzir o vapor para fora do edifício através de quaisquer materiais permeáveis ao vapor que componham as paredes periféricas. 

Quando o vapor passa através de materiais porosos e homogéneos, que podem estar quentes de um lado e frios do outro, pode passar através de zonas à temperatura do seu ponto de condensação.

Mas, se o fluxo de vapor for travado, por superfícies resistentes ao vapor a uma temperatura abaixo do seu ponto de condensação, o vapor condensará sobre tais superfícies frias. Esta humidade de condensação pode contribuir para a eflorescência na superfície das paredes.

Construção: Outra fonte de humidades que podem causar “flores da construção nova” e contribuir para a ocorrência da eflorescência num edifício é a água que entra no conjunto durante a sua edificação. A imprópria proteção de um edifício durante a construção pode contribuir significativamente para problemas futuros, eflorescências incluídas. É neste ponto, quando as partes interiores estão expostas, as juntas abertas e materiais estranhos presentes na obra, que a construção fica altamente vulnerável à entrada de consideráveis quantidades de humidade. Também, em certos casos, alguns sais solúveis adicionais de outras origens podem contaminar o assentamento da parede de alvenaria.  flores-da-construcao-nova

 

Outras manchas

Além das mais comuns eflorescências brancas atrás discutidas, podem aparecer ocasionalmente nas superfícies das estruturas de alvenaria algumas manchas. É o caso dos depósitos de carbonato (“escorridos de cal”), depósitos de silicatos (“espuma branca”), “manchas verdes” e “manchas castanhas”.

Depósitos de carbonatos (Escorridos de cal): Os depósitos de carbonatos, se ocorrerem, aparecem geralmente com uma cor cinzenta esbranquiçada, semelhantes a uma crosta com a forma de “escorrimento para baixo” vertical sobre a face da parede. Estes depósitos são por vezes referidos como “escorridos de cal”. Na realidade isto não é correto e pode ser desorientador, já que o “escorrido de cal” não é diretamente uma consequência da cal da argamassa. Os depósitos de carbonato aparecem quase sempre num pequeno furo da face da alvenaria.

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Os mecanismos deste tipo de manchas não são claramente conhecidos, mas são frequentemente comparados com a formação de estalactites em cavernas de calcário. É evidente que este tipo de depósito / mancha requer uma grande quantidade de água encaminhada por uma passagem comum durante um largo período de tempo. A água toma conta de qualquer dos compostos de cálcio por dissolução, e transporta-o para a superfície da alvenaria através do furo. A origem dos compostos de cálcio pode ser a ornamentação, a argamassa, o enchimento, etc. À superfície, pensa-se que a solução reage com o dióxido de carbono do ar, formando assim a crosta depositada.

Estas, manchas de carbonatos podem ser removidas usando-se uma solução fraca de ácido clorídrico, aplicada diretamente ao depósito. Deve ser dada atenção ao correto humedecimento prévio da área de parede antes da aplicação, e ao seu abundante enxaguamento após a limpeza. Isto é particularmente importante quando se removem depósitos de carbonato em tijolos de cor clara. É provável que o depósito reapareça a não ser que a origem da água seja eliminada.

 
Depósitos de silicatos (espumas): Os depósitos de silicatos, por vezes chamados de “espumas”, aparecem por vezes como uma descoloração geral branca ou cinzenta na face da alvenaria de tijolo. A descoloração pode ocorrer sobre toda a face da alvenaria ou, por vezes, em localizações específicas com 9 a 19 m2 de área de formas irregulares. Os depósitos/manchas de silicatos também podem ocorrer adjacentes a elementos de ornamentação, de betão pré-fabricado e, ocasionalmente, de largas extensões em vidro.  depositos-de-silicatos2
Estes depósitos de silicatos na alvenaria de tijolo não devem ser confundidos com a “espuma” que ocasionalmente aparece no tijolo durante o seu processo de fabricação. Esta última “espuma” torna-se evidente nos tijolos armazenados antes de serem assentes na parede.

É sabido que existem numerosos mecanismos que podem fazer precipitar depósitos de silicato nas alvenarias de tijolo. São especificamente químicos, contudo, isso não é totalmente evidente. Muitas destas manchas estão relacionadas com a limpeza da alvenaria de tijolo com soluções de ácido clorídrico, especialmente se os adequados procedimentos de limpeza não forem cuidadosamente observados, ou seja, abundante humedecimento prévio da parede, método de aplicação da solução de limpeza e abundante enxaguamento da parede com água limpa.

Os depósitos de silicatos são muito difíceis, senão impossíveis, de remover das alvenarias de tijolo. Eles são insolúveis na maioria dos ácidos. Frequentemente, o único método prático de lidar com o depósito de silicatos é disfarçá-lo e permitir que a exposição ao clima o vá removendo com o tempo.

 

Vanádio (Manchas verdes ou amarelas): Alguns produtos estruturais cerâmicos desenvolvem sais eflorescentes verdes ou amarelos quando ficam em contacto com a água. Estas manchas são usualmente sais de vanádio. Podem ser encontradas em produtos cerâmicos vermelhos, camurça ou brancos; no entanto, eles são muito visíveis e mais rapidamente aparentes nas unidades de cor clara. Os sais de vanádio responsáveis por estas manchas têm a sua origem nas matérias–primas usadas no fabrico dos produtos cerâmicos. As manchas verdes e amarelas são geralmente sais de vanádio, consistindo em sulfatos e cloretos, ou hidratos destes sais. Os mecanismos deste tipo de manchas são os seguintes : conforme a água viaja através do tijolo, dissolve quer os óxidos quer os sulfatos de vanádio. Neste processo, a solução pode tornar-se um pouco ácida. Conforme a solução evapora da superfície do produto, os sais ficam depositados.

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Os sais clorados de vanádio requerem soluções absorventes altamente ácidas, e são geralmente o resultado de lavagens da alvenaria com soluções de limpeza ácidas. O cloreto de vanádio, um dos mais importantes compostos que mancham, forma-se quase exclusivamente como resultado de lavagens com ácido clorídrico. Conforme afirmado por Brownell : “É necessária uma condição altamente ácida na água que atravessa um tijolo para que se produzam os sais coloridos de vanádio”.

Manganês (manchas castanhas): Sob certas condições podem ocorrer manchas cor de mel ou castanhas, por vezes cinzentas, nas juntas das alvenarias. Ocasionalmente, a mancha castanha irá escorrer pelas faces do tijolo. Este tipo de mancha é o resultado do uso do dióxido de manganês como agente corante nas unidades. Este problema de mancha está proximamente relacionado com o problema geral da eflorescência, já que são os sais sulfatados e clorados de manganês que viajam para a superfície do tijolo e ficam depositados nas juntas de argamassa. manganes
Durante o processo de cozedura do tijolo, os agentes corantes de manganês sofrem diversas transformações químicas, produzindo compostos de manganês que são insolúveis na água, mas que têm diversos graus de solubilidade em ácidos fracos. Conforme anteriormente referido, podem aparecer soluções ácidas nos tijolos de uma parede. Por outro lado, os tijolos podem absorver ácido clorídrico durante o processo de limpeza da alvenaria. É também possível que em certas áreas a água da chuva fique ácida (T.J. Minnick, “Effect of Lime on Characteristics of Mortar in Mansonry Construction”, Bulletin, American Ceranic Society, 38, 1959).

De acordo com Brownell : “As soluções de sulfato ou de cloreto de manganês do tijolo vão migrar através das juntas de argamassa especialmente durante um período de secagem. Estas soluções ácidas de manganês irão ser neutralizadas pela natureza inerentemente básica da argamassa. Durante a neutralização, precipita-se hidróxido de manganês insolúvel nas juntas de argamassa, o qual se converte em Mn3O4 na secagem”.

 
 Prevenção da eflorescência 

Os projetistas e profissionais de construção devem compreender não apenas as causas e os mecanismos dos vários tipos de eflorescência que podem surgir nas paredes de alvenaria, mas também devem estar cientes dos meios para a sua prevenção e controlo, em caso de aparecimento. A importância do projeto, da pormenorização, da seleção de materiais, do uso de “gatos” e selantes, assim como sobre a importância das boas práticas de construção são de importância primordial na prevenção da ocorrência de eflorescências. Sugere-se um procedimento de análise, consistindo numa lista de verificações com sete pontos, para uso na prospeção de problemas na construção. Finalmente, iremos sugerir métodos para a remoção da eflorescência.

A eflorescência, normal e incomodativo depósito de cristais de sais na face da alvenaria de tijolo, pode ser evitada. O conhecimento da natureza e mecanismos da eflorescência, tal como das possíveis origens dos sais e da humidade, é essencial na prevenção da eflorescência, como já abordámos.

Não é pragmática a pretensão de excluir todos os sais solúveis e toda a humidade do contacto com a alvenaria. Contudo, a redução de cada um destes fatores contributivos é bastante praticável e em geral reduzirá ou evitará a ocorrência e a severidade da eflorescência.

 

Seleção dos materiais

 

Selecionar os materiais, isto é, o tijolo exterior, o tijolo ou blocos de enchimento, os guarnecimentos e a argamassa, com um conteúdo mínimo de sais solúveis e um desempenho máximo na proteção hidrófuga da estrutura é o primeiro passo na prevenção da eflorescência.

 

Tijolo – Como afirmado anteriormente existem unidades de tijolo que não contém sais solúveis nem contribuem para a eflorescência e que estão à venda nos mercados. Em regra é recomendável que todas as faces sólidas e perfuradas do tijolo sejam testadas quanto à sua tendência para a eflorescência pelo teste de eflorescência constante da Norma Europeia EN 1504, “Produtos e Sistemas Para a Proteção e Reparação de Estruturas de Betão”.

Este teste consiste em imergir parcialmente amostras representativas de tijolo em água destilada por um período de 7 dias. No final deste período, deixam-se secar as unidades, e pesquisam-se as eflorescências por comparação com amostras que não foram imersas. O tijolo deve ser classificado nunca acima de “ligeiramente eflorescido” para ser aceitável.

Enchimento – Muitos materiais de enchimento contém relativamente altas percentagens de alcalis que podem contribuir para a eflorescência na face de uma parede em alvenaria de tijolo. Sugere-se, portanto, que as unidades de enchimento sejam testadas quanto ao seu conteúdo em sais pelo teste de eflorescência.

Conforme descrito por W.E. Brownell (W.E. Brownell, “The Causes and Control of Efflorescence on Brickwork”, Research Report N.º 15, Structural Clay Products Institute, 1969).

 

Quando são usados materiais de enchimento que contém sais solúveis, recomenda-se que todos os pormenores da parede e o projeto sejam tais que os materiais que contenham sais estejam separados dos tijolos exteriores aparentes. Esta precaução de projeto evita a migração através da parede dos sais solúveis em água que leva à eflorescência. Isto pode ser feito através do uso de paredes com caixa de ar, por exemplo.

Para minimizar a ocorrência das manchas verdes, são recomendados os seguintes passos :

1. Armazenar os tijolos afastados do chão e sob coberturas de proteção.

2. Nunca usar ou permitir o uso de soluções ácidas para limpar tijolos de cor clara.

3. Pedir e seguir as recomendações do fabricante do tijolo nos procedimentos de limpeza, para todos os tipos e cores de tijolo.

As manchas verdes de vanádio são muito difíceis de remover. Nunca tentar remover as manchas verdes com ácidos.

É importante prevenir a formação das manchas verdes causadas pelo vanádio, já que os subsequentes esforços de limpeza podem transformá-las num depósito castanho que é muito difícil de remover.

Para se minimizarem ou eliminarem as manchas de manganês, sugere-se o seguinte:

1. Durante a construção de um edifício usando-se tijolos coloridos com manganês, estes não devem ser limpos com ácido clorídrico sem que se faça a neutralização do ácido durante o enxaguamento. Esta neutralização vai tender a reduzir a quantidade de manganês tomado pela solução.

2. A aplicação de silicone nos tijolos pode evitar as manchas por retardar a penetração da água nos tijolos enquanto armazenados ou em serviço.

3. Pedir e seguir sempre a opinião do fabricante do tijolo nas limpezas de tijolos coloridos castanhos ou com manganês.

A remoção das manchas de manganês é uma operação muito simples. Contudo, a permanência dessa remoção é bastante duvidosa. Por vezes, a prevenção da ocorrência das manchas castanhas de manganês é da maior importância.

Assim sendo o que poderemos fazer para resolver o problema?

Procurar materiais alternativos e solicitar massivamente esclarecimentos às companhias cimenteiras sobre o assunto, pode ajudar a que estas passem a comercializar o cimento Pozolânico em sacos e a informar de forma adequada dos inconvenientes do cimento Portland e das vantagens do cimento Pozolânico em determinadas aplicações, nomeadamente das suas vantagens em ambientes húmidos.

Para minimizar o problema no imediato, penso que a utilização da Cal Hidráulica existente em Portugal pode resolver parcialmente o problema. Tem um calor de hidratação baixo e embora a resistência mecânica deste “cimento pobre” como muitas vezes é designado, seja inferior à do cimento Portland ou do cimento Pozolânico, em obras em que não hajam solicitações mecânicas especiais, nomeadamente nas zonas envolventes de piscinas ou de um modo geral em zonas de utilização exclusivamente pedonal, este material pode, misturado com cimento Portland, em proporções aconselhadas por técnicos especializados, resolver o problema.

Fica por resolver o problema das pequenas edificações onde a humidade é uma constante, muitas vezes inevitável, como é o caso das moradias uni familiares, nomeadamente nas aplicações em que é exigido um certo grau de exigência mecânica, como é o caso das fundações e das paredes sujeitas a humidade ou mesmo dos pavimentos sujeitos a grandes cargas. Nestes casos ou se importa de outros países o cimento Pozolânico ou o problema subsiste.

E como sabemos todas as construções assentam em terrenos, naturalmente sujeitos a humidade.

 

Fonte: Licínio Monteiro, entre outras.